O Canto do Piaga,
Gonçalves Dias                                   

Primeiro poeta autenticamente brasileiro, na sensibilidade e na temática, e das mais altas vozes de nosso lirismo, percebeu no índio a figura de um herói, construiu para ele e por ele poemas épicos, conquistando o mérito de ser o principal responsável pela implantação e definição do novo credo cultural no Brasil: o Romantismo. Refiro-me, aqui, ao poeta Gonçalves Dias, o mentor do indianismo brasileiro.

Entretanto, cabe-me restringir o foco, tratando do autor em outro momento. Por enquanto, delimitarei a minha análise em apenas um dos seus poemas: "O Canto do Piaga".

Publicado em 1846, na obra "Primeiros Cantos", o texto em estudo possui 80 versos divididos em 3 partes e 20 quartetos. Na intenção de fugir da tradição clássica, ele mistura versos octossílabos, decassílabos e, principalmente, os incomuns nonassílabos. Inicialmente, deixa uma idéia de que a sua rima será alternada, mas, logo na segunda estrofe, já manifesta o seu descompromisso com tal ordem e constrói, com liberdade, o ritmo e a musicalidade do poema.

Tal sonoridade atrai até o leitor menos interessado em versificação, contudo, não é ela o motivo principal do brilhantismo do texto, pois este está realmente é no Canto do Piaga, que traduz a visão épica do mundo, através do indianismo heróico, idealizado, fruto da imaginação do autor.

Há uma preocupação com seres sobrenaturais, fantasmas, seres capazes de arruinar a vida do índio, capazes, inclusive, de lhe tirar o bem maior, "a liberdade". Piaga, o pajé, o líder, conclama os seus guerreiros a ficarem alertas, pois ele prevê a aproximação do perigo. Na 4ª estrofe, percebe-se que o índio teme a cobra, que é traiçoeira e inimiga deles. A forma apresentada aos fantasmas é de uma cobra.

Em meio ao canto, percebe-se a pergunta do índio: "Esse monstro... - o que vem cá buscar?" ao que responde: "Vem matar nossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher!". Há de se notar, também, que todas essas desgraças só ocorrem quando “Manitós já fugiram da Taba!”, ou seja, estão em perigo porque com os seus guardiões ausentes, a presença do mal (Anhangá) é facilitada, mal este, que por diversas vezes, já foi interpretada como a invasão dos portugueses.

Trata-se, portanto, de um texto dinâmico e sedutor, tanto na forma quanto no conteúdo, um dos ícones do Romantismo indianista e, certamente, um dos motivos por tornar Gonçalves Dias um dos maiores poetas brasileiros. Por: Ada Magaly Matias Brasileiro

Dias, Gonçalves. O canto do Piaga. IN: Primeiros Cantos. Rio de Janeiro, 1846.