Laços de Família,
Clarice Lispector                  

O conto Laços de Família de Clarice Lispector leva o leitor a ter muita atenção não só com o que ele encontra registrado, mas principalmente com aquilo não revelado nas linhas, isto é, o que está implícito e o que vem nas entrelinhas trazem muito mais revelações, levando-nos muitas vezes a questionar e até estranhar alguns comportamentos apresentados pelas personagens em determinados momentos no conto.

O texto descrito por Clarice não segue a narrativa tradicional, apesar de tratar-se do gênero literário narrativo, pois, para ela, narrar é o que importa, já que encontramos muitos vazios literários onde as explicações ficam em aberto sem um desfecho imediato, que convidam o leitor a entrar e participar do jogo. Sem falar nas repetições, que a cada instante enfatizam determinadas situações vividas pelas personagens e a presença de ambiguidades e de frases com aspas ou reticências.

O conto em si fala de como as relações humanas podem assumir improváveis e inimagináveis situações que atingem proporções difíceis e quase impossíveis de serem resolvidas. Como o próprio título sugere, as personagens encontram-se de alguma maneira entrelaçadas em suas relações familiares, fazendo com que cada convívio influencie o modo de viver das demais personagens.

Temos o relacionamento entre Severina e Catarina, mãe e filha, conduzindo e direcionando os demais laços na trama, pois pela maneira fria e superficial como se tratavam, era inevitável que Antônio, marido de Catarina, e o filho do casal, sofressem influência na relação entre as duas. Eram mãe e filha que não se permitiam qualquer contato mais íntimo, natural, como um simples abraço. Não havia uma relação de amizade verdadeira entre elas. Se havia vontade, por parte de Catarina, de expressar algum sentimento, era feito através do olhar, já que era estrábica e valia-se disto para camuflar e disfarçar qualquer situação constrangedora.

“Tudo passava pelos olhos, desde sempre fora estrábica...”

Como consequência dessa relação entre mãe e filha, Catarina tinha com o marido e com o filho uma vida completamente programada, principalmente com Antônio. Com ele, Catarina tinha um apartamento sempre arrumado, a luz da sala era bem regulada, os móveis, as cortinas e os quadros bem escolhidos, tudo material e nada mais.

“Fora isso o que ele lhe dera”

E com o filho, a situação não era muito diferente, pois o menino, através do seu comportamento frio, distante e indiferente, externava toda a sua angústia, a ponto de somente aos quatro anos tê-la chamado de mãe de uma maneira que a fizesse mais uma vez despertar para algo novo.

Um outro momento em que as revelações começam a acontecer para Catarina é quando, através de uma “freada brusca” nas relações existentes, ocorre uma quebra na rotina superficial que os comportamentos exigiam. Foi uma freada súbita do táxi que fez com que mãe e filha reconhecessem algo já esquecido pelo tempo e que ainda não havia sido despertado, ou seja, um sentimento de amor que as unissem. Essa epifania faz de uma situação aparentemente cotidiana uma redescoberta da própria vida para as duas personagens e que poderá ter desdobramentos na relação de Catarina com o filho e com o marido. Com isso, será quebrada aquela formalidade existente nos laços de família, isto é, formalidade que propositadamente escondia outros laços muito mais resistentes e fortes.

Diante de tudo, foi possível verificar que passagens com duplo sentido, repetições, vazio literários, ambiguidades, momentos epifânicos e análises psicológicas, fazem de Clarice Lispector uma das maiores escritoras pós-modernas.

LISPECTOR, Clarice. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.