EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E LEITURA:
PRÁTICAS DE INCENTIVO
  • Ludimila Corrêa Bastos*

  • INTRODUÇÃO

    Constata-se a presença de um público bastante misto na Educação de Jovens e Adultos, as idades, o sexo, as expectativas, os objetivos com o estudo variam bastante. Entretanto, este público apresenta uma semelhança: pouco tempo para se dedicar aos estudos fora da sala de aula, que se deve a vários fatores como, por exemplo, o fato de muitos possuírem uma jornada de trabalho longa e cansativa, morarem longe do serviço e da escola e no caso da maioria das mulheres, ainda terem que cuidar dos afazeres domésticos. Sendo assim, parte significativa desses alunos não possui o importante hábito de leitura. Este trabalho relata a experiência feita com alunos da Educação de Jovens e Adultos no nível médio, no Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos da UFMG (PEMJA), com a criação e publicação de livros a partir de um trabalho interdisciplinar. O objetivo foi buscar fomentar o hábito de leitura, de questionamento, de indagação e escrita com estes alunos. Para fechamento deste trabalho, foram criados três livros, um de receita, um de xilogravura e poemas, e um outro de poesias, com temas definidos de acordo com o interesse dos alunos. Durante um ano visitas à biblioteca foram constantes, todos buscavam informações novas sobre os temas propostos. Este trabalho terá continuidade no decorrer dos próximos anos, pois mostrou resultados interessantes. Houve uma familiarização e valorização da leitura entre os alunos, o que  pode ser mostrado pelo aumento da locação de livros na biblioteca após o projeto.

    O PROJETO DE ENSINO MÉDIO DE JOVENS E ADULTOS - PEMJA

    O Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos (PEMJA) é um Projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais, sediado no COLTEC. Foi criado na década de 90, para dar continuidade à escolarização dos funcionários da UFMG, mas hoje também é aberto a pessoas da comunidade externa, que podem ingressar neste através de uma prova de seleção no início de cada ano.

    O Projeto é financiado pela UFMG, através da Pró- Reitora de Extensão e conta com graduandos dos cursos de licenciatura atuando como monitores-professores. Cada monitor possui um coordenador de área, que auxilia e orienta o trabalho desenvolvido. Assim, delineiam-se duas frentes de atuação: uma configurada entre coordenador de área e os monitores (alunos da graduação em formação) e a outra, formação dos alunos caracterizados como jovens e adultos (alunos do PEMJA). A orientação dentro do Projeto é a interdisciplinaridade que, para os coordenadores do Projeto, proporciona ao aluno uma visão do mesmo objeto por ângulos diferentes. A interdisciplinaridade envolve a contextualização do conhecimento, o que proporciona ao aluno um maior envolvimento, identificação e interesse com o objeto estudado.

    O Projeto de extensão da UFMG, PEMJA, acredita que é importante reconhecer a existência de diferentes conhecimentos e saberes, em especial o científico e o tradicional. Para que a extensão seja de fato eficaz e inclusiva, é necessário um diálogo entre os protagonistas desses conhecimentos, ou seja, alunos e professores, sempre buscando as soluções para os desafios. O PEMJA, como um projeto de extensão, pensa que ela deve ser um caminho para que tenhamos um Brasil mais justo, para todos os que aqui sonham, apostam e trabalham.

    O Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos tem como objetivo uma formação humana, crítica e autônoma dos alunos e para isso, procura não encarar a Educação de Jovens e Adultos como uma educação compensatória, cujos principais fundamentos são a de recuperação de um tempo de escolaridade perdido no passado. A concepção de Educação de Jovens e Adultos deve levar educandos e principalmente educadores à ressignificação dos saberes na Idade Adulta. Nesta perspectiva, é preciso buscar uma concepção mais ampla das dimensões tempo/espaço de aprendizagem, estabelecendo uma relação mais dinâmica com o entorno social e com as suas questões, considerando que a juventude e a vida adulta são também tempos de aprendizagem. É nesta concepção que o PEMJA está inserido, com o objetivo de favorecer a progressão dos estudos de seus alunos.

    O PERFIL DOS ALUNOS DO PEMJA DE 2007

    A concepção pedagógica adotada pelo Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos, com base no artigo COLTEC (2004), considera o aluno como sujeito ativo do processo educacional e, nessa perspectiva, a área de Psicopedagogia, composta por monitoras da Psicologia e da Pedagogia, elaborou um projeto que tem como objetivo principal a contribuição para a proposta pedagógica e possíveis intervenções a partir da psicossociologia. Para isso, aplicou-se um questionário nas 6 turmas para identificar o perfil sociológico dos alunos; estes questionários foram utilizados como instrumento de coleta de dados para o levantamento do perfil sociológico dos alunos do PEMJA. Os questionários foram compostos de questões fechadas e abertas e foram aplicados nas 6 turmas existentes, sendo 3 do 1º ano e 3 do 2º ano. Os questionários foram aplicados aos alunos que se interessaram em fazê-lo, totalizando 106 pessoas, o que corresponde a 84% dos alunos matriculados.

    O questionário contemplou dados como: sexo, faixa etária, cor, profissão, estado civil, filhos, renda familiar, histórico de doenças, com quem mora, motivos que o levaram a parar de estudar e a voltar a estudar, quem apoiou a volta aos estudos e quem continua apoiando, objetivos após concluir o ensino médio, se gosta de estudar, mudança em aspectos da vida após a volta aos estudos, opinião sobre o PEMJA e dificuldades encontradas ao voltar a estudar. Os dados coletados foram analisados e agrupados em categorias.

    Os resultados obtidos revelam presença do público feminino superior ao masculino, sendo 57% dos alunos pesquisados composto por mulheres enquanto os homens representam 43% desta população. Essa informação confirma pesquisas que demonstram o acesso cada vez maior das mulheres à educação em todos os níveis de escolarização. Segundo estudo do Ministério de Educação e Cultura e da Secretaria Especial de Políticas para Mulher (2003), a participação feminina é predominante a partir do ensino médio.

    A faixa etária apresenta-se heterogênea, sendo dentre os pesquisados o mais jovem de 18 anos e o mais velho de 94 anos. Pode-se dizer que a maior parte dos alunos do PEMJA tem entre 31 a 50 anos (54%). Disto decorre o fato de que a maioria destes estava em torno de 20 anos ou mais sem estudar, o que gera algumas dificuldades por parte dos alunos devido às modificações ocorridas no processo de ensino-aprendizagem. Isso faz com que os alunos tragam suas experiências e concepções a respeito da escola, do professor, do processo de ensino-aprendizagem influenciando assim na construção do conhecimento. É importante que os alunos compartilhem esses conhecimentos e experiências na sala de aula com o objetivo de serem discutidos e ampliados para o novo contexto do processo educacional.

    A maioria dos pesquisados são casados (57%), moram com familiares (91%) e têm de 1 a 3 filhos (68%). Constatamos que 69% destes estão trabalhando, seja com trabalho formal ou informal. Apesar da parcela de alunos desempregados (23%) ser inferior, esta é significativa. Dos que estão trabalhando, a maioria recebe de 1 a 2 salários mínimos. 74,5% dos pesquisados não mantêm a casa sozinhos, tendo pessoas que contribuem com as despesas. Entretanto, 65% dos alunos têm renda familiar variando de 1 a 5 salários mínimos, isto é, a renda familiar de 350 a 1750 reais. Estes dados condizem com o estudo do MEC realizado pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (2005) referente ao perfil de jovens e adultos no qual se percebe a presença significativa de subempregados, desempregados, trabalhadores informais além de denunciar uma diferença entre os sexos no quesito salário. As mulheres, em média, ganham menos que os homens.

    Com relação às pessoas que apoiaram estes alunos a voltarem a estudar e que continuam apoiando, a família aparece em destaque, representando mais de 60% em ambas as situações. No que diz respeito aos motivos que os levaram a voltar a estudar a exigência do mercado de trabalho ou do próprio trabalho aparece em 1º lugar para ambos os sexos. A vontade de progredir profissionalmente, atualizar os conhecimentos aparece nitidamente, mostrando que o público pesquisado possui objetivos bem definidos e que o fato de estarem estudando eleva sua alta estima e os fazem sentirem mais aceitos pela sociedade. 92,5% dos pesquisados gostam de estudar e 96% consideram que sua vida mudou para melhor depois de voltar a estudar sendo que 84% dos alunos pretendem continuar estudando após concluir o ensino médio, seja fazendo faculdade (48,4%), curso técnico ou profissionalizante (21%), concurso (5,6%) ou outros cursos (9%).

    A pesquisa realizada mostra uma série de informações sobre o público do Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos e com estes dados se torna possível levantar algumas características e problemas referentes tanto aos alunos, quanto ao processo de ensino-aprendizagem para jovens e adultos. A análise dos dados alcançados pela pesquisa possibilita uma reflexão sobre as práticas vivenciadas no Projeto, como o caso de verificar a causa do baixo índice de leitura entre os alunos.

    A grande maioria dos alunos, segundo BASTOS, RESENDE e PINTO (2006), vê o estudo como uma forma de ascensão social. Acreditam que não possuem melhores oportunidades profissionais, exclusivamente devido à falta de estudo, julgando esta situação como um problema individual. Importante, pois, refletir sobre aspectos estruturais da sociedade envolvidos nesta questão, ampliando a visão do aluno. Outra evidência é o fato da entrada e permanência de grande parte dos alunos no Projeto ser devido ao incentivo e ao apoio de suas famílias. Logo, é importante incluir as famílias no processo pedagógico a fim de diminuir os índices de evasão. Este estudo permite conhecer melhor estes alunos para então, a partir da sua realidade, aprofundar e ampliar seus conhecimentos. Somente assim é possível fazer intervenções contextualizadas e significativas para os mesmos.

    A LEITURA DO PEMJA E O PROJETO DE INCENTIVO A LEITURA

    Paulo Freire já afirmou que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, porque na realidade estamos lendo o que nos permeia, tudo o que está a nossa volta é uma leitura que se faz, de acordo com quem olha”. Com base nisso, devemos então, investir na Educação de Jovens e Adultos como formadora de sujeitos que pensem e raciocinem sobre sua realidade a fim de que cada um possa ser um sujeito atuante no meio social, e que tomem a leitura como uma maneira prazerosa de produzir conhecimentos novos.

    Observou-se no PEMJA, no decorrer dos anos anteriores, que o número de locação de livros era pouco, apesar de a biblioteca ser aberta a todos os alunos, sem ônus algum. Quando solicitado pelos professores leituras de textos extra-classe, o rendimento dos alunos era baixo, assim como o interesse.

    Indagando aos alunos a respeito do motivo da falta de proximidade com a leitura, a resposta da maioria era a de que estudavam, trabalhavam e ainda possuíam famílias. Sendo assim, o tempo era escasso para outras atividades, como se vê na fala da aluna “M. G.” da turma “02”:

    “Eu acordo às cinco da manhã para ir trabalhar, venho para à escola a noite e quando chego em casa ainda tenho que fazer janta, olhar os meninos. Não dá para perder tempo com livros não... Mas eu bem que queria poder ler, porque ler é ter conhecimento, e ter conhecimento é fundamental no mundo de hoje”  - Aluna M. G. turma 02

    O público da Educação de Jovens e Adultos (EJA) é um público diferenciado dos alunos matriculados no ensino regular. A questão da falta de tempo realmente é fator relevante, talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas por eles com a volta aos estudos. Muitos alunos cumprem uma jornada diária de trabalho de até 10 horas, moram longe do serviço e do local onde o Projeto se situa, possuem família, dentre outros afazeres que fazem que com que a escola não possa contar com um tempo dedicado à ela fora de seu período presencial. Sendo assim, exigir leituras extra-classe, mesmo mostrando aos alunos a importância do processo de leitura, não teria efeito para a grande maioria deles.

    Foi preciso pensar tentativas de soluções que proporcionassem, em primeiro lugar, um aprendizado e conscientização sobre a leitura que possibilitasse aos alunos, do PEMJA uma certeza da importância da leitura na vida cotidiana. Para isso, nos baseamos em FREIRE (1970), que afirma que, muitas vezes, se tem uma visão dos alunos da modalidade de EJA como sendo sujeitos ingênuos e sem conhecimento, por isso, sua escolarização é reduzida a um ato mecânico de depositar palavras, silabas e letras. Para este grande autor, é necessário uma educação crítica, que tente considerar o conhecimento trazido pêlos estudantes, os quais necessitam serem problematizados pelo educador junto com eles. Desta forma, a leitura crítica e contextualizada é de grande importância para que o indivíduo venha a interagir com o mundo e conviver no o meio social.

    Nesta linha é que se desenvolveu o projeto de Práticas de Incentivo à Leitura dentro do Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos da UFMG. O primeiro passo foi a um trabalho interdisciplinar através do qual se trabalhou a importância da leitura para o dia-a-dia de cada um. Para isto, os textos trazidos para a sala de aula partiam das realidade e vivenciadas pelos alunos, procurando, desta forma, valorizar os conhecimentos prévios trazidos pelos mesmos para dentro da sala de aula.

    A segunda forma de incentivo à leitura que passou a ser adotada foi fazer com que grande parte das aulas, de todas as disciplinas, passassem a ser ministradas dentro da biblioteca, incentivando a pesquisa e o contato com os livros.

    Mas isto somente não bastava e foi neste momento que surgiu a idéia de fazer com que os próprios alunos produzissem. Todos os assuntos, depois de trabalhados em sala de aula, viravam temas para produção de redações, poemas e poesias. As produções dos alunos eram afixadas em murais com o objetivo de valorização e divulgação dos trabalhos. Esta metodologia funcionou bem e neste ponto percebeu-se que os alunos estavam bastante envolvidos com o Projeto e que este havia atingido o seu objetivo. Os alunos sentiam prazer em ler e pesquisar para depois produzir seus próprios textos.

    De acordo com LEAL e DESTERRO (2006), uma vantagem desse tipo de trabalho é que no decorrer de sua execução ocorrem modificações na realidade em que se atua; no nosso caso, o acesso à leitura como parte do próprio processo investigativo. Isto quer dizer que a produção de conhecimento é simultâneo à modificação da realidade, realizando-se cada um dos processos em função do outro, além da compreensão de que a leitura não remete somente a livros, revistas e jornais.

    Neste contexto é que devem ser destacadas práticas que encorajem os alunos jovens e adultos a ter prazer pela leitura, independentemente do grau de instrução ou da idade do indivíduo, ele leitura mundo de acordo com o contexto em que vive.

    A PRODUÇÃO DOS LIVROS

    Os trabalhos produzidos durante o decorrer do projeto, foram os mais diversos possíveis. Os alunos escreveram poesias e redações, sobre uma infinidade de temas, alguns direcionados pelo professor (a), outros de acordo com o interesse individual de cada um.

    Como é preocupação do PEMJA procurar a cada dia educar e não somente ensinar algo, e sabendo que o verdadeiro aprendizado está vinculado a um fazer motivado pelo desejo de conhecer para aperfeiçoar o que já se é feito, foram produzidos três livros pelos alunos, com a orientação dos professores. Um livro de poesias, um livro de xilogravura e poemas, e um terceiro de receitas culinárias. O objetivo com a produção destes livros foi a valorização do trabalho desenvolvido pelos alunos, além de produzir a consciência crítica dos mesmos.

    O primeiro livro a ser produzido foi o Poetizando em Sala de Aula, um livro de xilogravuras e poemas de todos os alunos do 2º ano. Foram selecionados dois poemas de cada aluno para compor o livro, e todos tinham como tema central a infância e o saudosismo da mesma. O trabalho de produção deste livro proporcionou aos alunos vivenciar um processo de utilização das informações obtidas, oralmente ou através da leitura, na produção de um material que conta parte da história de vida de cada um deles, além de evidenciar os seus sonhos e anseios para a vida. O projeto de incentivo à leitura desenvolvido, que culminou com a produção dos livros, espera que este seja apenas o início de várias outras produções deste grupo de alunos que com grande afinco extraiu da escola da vida a sua sabedoria.

    O segundo livro confeccionado foi o livro Um Jeito Gostoso de Aprender Português, um livro de receitas de culinária dos alunos do 1º ano. Para produzir o livro, os alunos pesquisaram na biblioteca sobre a história da culinária no Brasil e no mundo, e logo após foi feito um debate em sala sobre o que cada um achou mais interessante na pesquisa. Foi selecionada uma receita por aluno para a montagem do livro, não receitas comuns, mas receitas que lembrassem as pessoas amadas. Este trabalho teve importância, pois saber uma receita de cor, explicar como fazê-la, é diferente de escrevê-la para publicação. Requer conhecer este gênero textual, além de ler, pesquisar e refletir sobre a língua portuguesa.

    O terceiro livro foi uma coletânea de poemas da aluna Juliana de Jesus Aquino Silva, do 2º ano. Houve um concurso de poemas e o prêmio era um livro publicado pela escola para o vencedor. Com o concurso houve uma grande participação e produção por parte dos alunos. O livro produzido com os poemas da aluna vencedora do concurso, em sua apresentação descreve bem a intenção do trabalho desenvolvido:

    “Para falar de poesia é preciso reinventar os jeitos de se dizer as coisas. Dizer não é tão simples assim. O que nos escapa, às vezes, é apenas o avesso daquilo que de fato gostaríamos de ter dito. Escrever é um exercício diário que substitui a comunicação, daqueles que não se dão pela falta dela. O poeta fala direto ao coração humano, porque se aventura nos atalhos de silêncio que lhe margeiam. Por isso, a poesia que Juliana de Jesus Aquino Silva vive e registra nos faz inquietos junto a um mundo repleto de coisas não ditas, que encontram pulso na sua maneira simples, mas inteiramente profunda de relatar os inúmeros sentimentos que fazem parte de uma esfera humana que é comum a todos nós. As palavras são simples. Compõem gritos em formatos sem cores. Fala de amores, noites, traumas, medos, paixões que assolam aquilo que não conseguimos dar nomes. Pedaços de um eu-poético que se mistura em frases pequeninas, imagens que trazem dor e amor ao mesmo tempo, saudades e utopias que vão se edificando em cada linha traçada. E tudo para dizer que embora estranho, é do silêncio que sempre se espera a melhor das rimas”. pág. 02

    RESULTADOS DO PROJETO DE INCENTIVO A LEITURA

    A biblioteca estava lá, com um acervo enorme de livros e uma variedade de assuntos incríveis. Todos os alunos possuíam carteirinha da biblioteca e não pagavam nada pela locação de livros. Entretanto, o índice de empréstimos era muito baixo.

    Era necessário incentivar os alunos a ler. Mas, o desenvolvimento de um projeto que vise o incentivo da leitura para os alunos, principalmente da modalidade de Educação de Jovens e Adultos, para obter resultados positivos, deve procurar conhecer o perfil de seus alunos e suas necessidades e interesses básicos, para que assim as leituras trabalhadas tenham um significado prático. É preciso também mostrar a importância da leitura na vida cotidiana dos mesmos, com exemplos de situações onde se evidencie a importância de ler.

    Foi o que tentou-se fazer. Aulas na biblioteca para familiarizar os alunos com o espaço, debates e apresentações de trabalhos, onde os grupos deveriam ler e pesquisar sobre temas pré-definidos, discussões sobre assuntos diversos em sala de aula. Para tudo isso, os alunos viram que ler era importante, que através da leitura, você se informa, participa do que está acontecendo na sociedade e aprende à argumentar.

    Além disso, com a produção dos livros, os alunos viram como é todo o processo de criação de um livro: definição de um tema, pesquisa sobre o tema escolhido, discussão, escrita, correção, definição de arte gráfica, dentre outros aspectos. Assim, viu-se que a grande maioria passou a valorizar muito mais “o livro”. Como um fruto de todo o esforço e trabalho de alguém.

    Um primeiro resultado do projeto de leitura desenvolvido foi a conscientização dos professores de que deve-se incentivar os alunos a ler. Realizar e solicitar trabalhos na biblioteca, indicar livros aos alunos como suporte para as aulas e trabalhá-los em sala de aula, já que sabemos que lidamos com um público de EJA, que tem como uma das maiores dificuldades de voltar a estudar a falta de tempo.

    Outro resultado obtido foi verificar que existiam poucos livros no acervo da biblioteca destinados ao interesse do público de Educação de Jovens e Adultos. Assim, foi solicitada a compra de exemplares que os alunos gostariam de ter acesso.

    E o maior resultado, depois do desenvolvimento desse projeto interdisciplinar de incentivo à leitura, foi o aumento significativo do índice de empréstimos de livros pela biblioteca do COLTEC para os alunos de EJA. Mesmo ainda alegando ter muito pouco tempo para atividades extra- classe, passaram a pegar livros de leitura. Isto, acreditamos, se deve ao fato de terem visto a importância do ato de ler em nossa sociedade. Assim, sempre que possível dedicam um tempo para a leitura.

    Como vimos, além da dificuldade relacionada com a falta de tempo enfrentada por alunos da Educação de Jovens e Adultos, muitos outros, como afirma LEAL e DESTERRO (2006), ainda não dominam o código da escrita e o código da leitura e assim surge a necessidade de investimentos e projetos que intensifiquem o desenvolvimento de práticas pedagógicas que primem pela melhoria e valorização do ensino para alunos jovens e adultos. Além disso, os professores precisam estar capacitados para trabalhar com essa realidade e melhorar a qualidade do ensino É muito importante a conscientização dos alunos de que ler é uma forma de sonhar, conhecer, aprender, imaginar, refletir, questionar, e, sendo assim, de participar mais efetivamente do que acontece na sociedade, na escola, na família.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    ARMANI, Domingos. Como elaborar projetos?: guia prático para elaboração e gestão de projetos sociais.
    Porto Alegre: Tomo Editorial, 2003.

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    _____. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa.
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    Adriana Desterro, SANTANA, Rosana. Projeto Social em Educação: Aquisição da leitura na Educação de Jovens e Adultos. São Paulo, 2006.

    SILVA,
    JULIANA DE JESUS AQUINO. Poemas. PEMJA/COLTEC/UFMG, 2006.

    * Ludimila Corrêa Bastos. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Educação.

    Artigo apresentado 5º Seminário Educação e Leitura. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Sob a orientação da Profª Carmem Lúcia Eiterer.