A NORMA CULTA   Marcos Bagno

Este pequeno livro procura, por meio de um exame sobre as relações entre língua e poder, reagir a profecias derrotistas, mostrando por que elas não devem ser levadas a sério por quem tiver um mínimo entendimento da história do Brasil e de sua realidade sociológica.

Bagno procura desmistificar o preconceito lingüístico-social marcante e profundo entre os falantes de uma língua. Aproveita a eleição de Lula para contextualizar e questionar sobre alas conservadoras defensoras da norma culta, modelo que é estável e não demanda a língua real de um povo. Por outro lado, língua é externa ,dinâmica, concreta e real. Logo, uma atividade social de um povo. Cita que há letrados que erram a concordância quando a oração é VOS : “Chegou os livros.” , ao invés de “Chegaram os livros.”. Isso passa desapercebido mesmo contrariando as regras gramaticais, alegam descuido ou um lapso. Já em relação às classes menos privilegiadas, os erros crassos são alvos de preconceitos e discriminação social.

Observa o autor que Lula foi eleito pelo povo, mas por uma eleição política e não histórico-sociológica. Ou seja, utilizou os mesmos discursos das classes privilegiadas, repletos de vícios, mas com habilidade, não abandonou os elementos característicos das variedades lingüísticas populares e as utilizou nos discursos e falas de improvisos. Foi uma eleição revolucionária, mas individual que não deu aos milhões desprestigiados a cultura letrada.

No capítulo "Por que norma? Por que Culta?", explica que antes a escrita era monitorada devido ao seu valor literário e hoje o modelo, ainda que absurdo, sãos os meios de comunicação através da prática oral. Justifica-se que o brasileiro não lê, mas a poesia está na rica música popular. Além disso, somos um povo influenciado pela moda lingüística da televisão e não pelos autores de ficção.

Além disso, expõe que o português difere do europeu; logo, não se compreende estudarmos exemplos de autores portugueses em atividades lingüísticas. Esclarece que a língua é social, diferente de gramática que é sobrenatural. Diz que esta língua utilizada por alguns iluminados fazem os falantes comuns se acharem não saber falar o português, além de considerá-lo difícil.
Comenta ainda do preconceito a todas a manifestações populares faladas ou escritas nas classes menos privilegiadas; entretanto, o pronome cujo e o tempo verbal, futuro do presente são utilizados apenas na escrita e as regras pronominais desapareceram.

Por que culto? É antônimo de popular? Observa novamente o preconceito, ou seja, culto do ponto de vista das classes privilegiadas, inculto por não falar esta língua cheia de regras por causa da desigualdade social. E, ainda, aproximar-se dessa norma é sinal de prestígio ou desprestígio.

No capítulo dois, há um pouco de história da língua portuguesa, desde a colonização, explicando sobre o extermínio dos falantes do Tupi e do Tupinambá e a inclusão autoritária do português, enraizado até hoje na elite intelectual. Estes defendem que portugueses e brasileiros brancos falem a mesma língua, entretanto fiquem fora milhões de negros e mulheres. Questiona, como valorizar a variedade estigmatizada? Se houve ausência da participação popular nos momentos históricos. O reduzido acesso à escola não propagou a norma padrão. Além disso, justifica-se que a cultura inacessível a maioria marginalizada da escola e da cultura livresca. A história da educação e a proibição explícita de Portugal a qualquer forma de impressão é um retrocesso; logo, resultou em poucos escritos e poucas pessoas capazes de ler.

O autor ressalta ainda que o português lusitanizado não resistiu ao brasileiro, vivo e dinâmico embora ainda povoe o imaginário. Questiona: desaparecerá com a inclusão do alunado pobre às escolas públicas? E os docentes que são filhos de pais que nunca foram à escola? Contraria-se. Acusa a mídia como responsável pela preservação e divulgação do preconceito lingüístico social.

O português sofreu mudança como qualquer língua viva. Quais as causas? A influência estrangeira? As necessidades sociais? O fator fonético? Como justificar quando há muitas pessoas falando uma língua que sofre variações , e conseqüentemente ocorrerá mudanças.
Finaliza, refletindo que por mais que os gramáticos criem regras para controlar a atividade lingüística dos falantes eles continuarão “errando” em prol da interações lingüísticas e sociais e das relações de poder que moldam os critérios de rejeição e de aceitabilidade.

BIBLIOGRAFIA

BAGNO,
Marcos.A norma oculta:língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
MACHADO,
Ana Maria. Contos brasileiros- coletânea- Literatura infanto- Juvenil. São Paulo: FTD,2001.
Almanaque Leitura.
São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2003.
MORAIS,
Fernando. Olga. São Paulo: Alfa-Omega, 1985.
 

BAGNO, Marcos. A Norma Oculta: Língua & Poder na Sociedade Brasileira. (2ª ed). São Paulo: Parábola Editorial, 2003. 200 páginas.