LER E COMPREENDER   Ingedore V. Koch e Vanda Maria Elias

Maria Aparecida Lopes Rossi

 

Partindo da concepção de que o texto é lugar de interação de sujeitos sociais que nele se constituem e são constituídos dialogicamente, Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias, no livro Ler e Compreender - os sentidos do texto(Editora Contexto,216 páginas) apresentam, de uma forma objetiva e didática, as estratégias utilizadas pelo leitor no processo de leitura e construção de sentidos. A leitura do livro confirma que as autoras conseguem, com eficiência, atingir os objetivo de preencher uma lacuna no mercado editorial, com uma obra que, além de discutir as principais teorias da lingüística textual, estabelece uma ponte destas teorias com a prática de ensino de leitura e que interessa aos professores da área do ensino de línguas de todos os níveis de ensino.

Dividido em nove capítulos, o livro inicia discutindo as concepções de sujeito, língua, e texto que estão na base das diferentes formas de se conceber a leitura.As autoras vão se situar na concepção internacional e dialógica da língua, que compreende os sujeitos como construtores sociais que mutuamente se constroem e são construídos através do texto, considerado o lugar por excelência da constituição dos interlocutores. Nesta concepção a leitura é entendida como atividade interativa de construção de sentidos. Para isso é ressaltado o papel do leitor enquanto construtor do sentido do texto, que, no processo de leitura, lança mão de estratégias como seleção, antecipação inferência e verificação, além de ativar seu conhecimento de mundo, na construção de uma das leituras possíveis,já que um mesmo texto admite uma pluralidade de leituras e sentidos. A leitura, além do conhecimento lingüístico compartilhado pelos interlocutores, exige que o leitor, no ato da leitura, mobilize estratégias de ordem lingüística e de ordem cognitivo-discursivas

A ativação das estratégias de leitura implica na mobilização de três grandes redes de conhecimento: o lingüístico, o enciclopédico e interacional.É essa rede de conhecimento que permitirá ao leitor interagir com textos de gêneros variados de acordo com o contexto e seus objetivos de leitura.Neste aspecto as autoras dedicam todo um capítulo à discussão do papel do contexto no processo de leitura e produção de sentidos.A concepção de contexto é um dos pontos centrais da Lingüística textual. Inicialmente as pesquisas sobre o texto consideravam o contexto apenas como o entorno verbal do texto, o co-texto. Com a Teoria dos Atos de Fala e a teoria da Atividade Verbal passou-se a levar em conta o contexto sóciocognitivo como necessário para que se estabeleça a interlocução entre duas ou mais pessoas. Assim, o contexto englobará não só o co-texto, como também a situação de interação imediata a situação mediata e o contexto cognitivo dos interlocutores.

Dessa discussão o que se infere, é que uma mesma expressão lingüística pode ter seu significado alterado em função dos fatores contextuais, o que implica então que falar de discurso implica em considerar fatores externos à língua para se entender o que é dito.No conjunto de conhecimento constitutivos do contexto a noção de intertextualidade é destacada pelas autoras que dedicam todo o capítulo 4 para tratar desta questão, vez que este é um dos grandes temas da Lingüística Textual. A intertextualidade é elemento constituinte e constitutivo do processo de leitura e escrita e se refere às diversas maneiras pelas quais a produção/recepção de um texto depende do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores.O conhecimento intertextual é que permite ao leitor perceber como um texto está sempre se relacionando com outros textos, numa relação que pode ser explícita ou implícita, tanto no que se refere à sua forma quanto ao conteúdo.

A noção de gênero textual é objeto de discussão do 5º capítulo do livro. A partir da noção de gênero desenvolvida por Bakhtin, as autoras mostram como o processo de construção de sentidos que ocorre no ato de leitura é direcionado pelo gênero do texto que está sendo lido. Segundo Koch, na medida que são expostos a um número infindável de gêneros textuais os indivíduos desenvolvem uma competência metagenérica que lhes possibilita interagir de forma adequada com os mais diversos textos que circulam nas diferentes esferas das práticas sociais, já que a partir da identificação do gênero o leitor saberá o que buscar no texto lido.Desta forma a competência metagenérica orienta a nossa compreensão sobre os gêneros textuais materializados nos diferentes suportes de texto. Para exemplificar a discussão teórica, o referido capítulo é amplamente ilustrado com os mais variados gêneros textuais que se constituem numa grande contribuição para os professores que trabalham o ensino de leitura com o objetivo de formar leitores capazes de perceber o jogo que freqüentemente se faz por meio de manobras discursivas nas mais diferentes esferas da comunicação humana.

As autoras vão se ocupar ainda das atividades que permitem o processamento do texto como a referenciação e progressão referencial, as funções das expressões nominais referenciais e a sequenciação textual. Neste aspecto ressaltam a forma como se dá o processamento do texto no ato de leitura, caso da referenciação, que se dá numa oscilação entre vários movimentos: um para frente (projetivo) e outro para trás (retrospectivo) representados pela catáfora e anáfora respectivamente, além dos movimentos abruptos, fusões, alusões, etc. Com isso percebemos como o texto é um universo de relações seqüenciais que não ocorrem linearmente.
O papel da coerência textual para a produção de sentidos é destacado no último capítulo do livro. Para discutir a questão as autoras procuram conceituar a coerência textual, mostrando como as noções tanto de coerência quanto de coesão sofreram alterações no decorrer do tempo. Elas ressaltam que a coesão não é condição necessária nem suficiente da coerência, já que a primeira se refere ao universo interno do texto, enquanto a segunda se constrói a partir do texto, numa dada situação comunicativa, com base em fatores de ordem semântica, cognitiva, pragmática e interacional. O que se conclui daí é que a coerência é uma princípio de interpretabilidade do discurso que se constrói em conexão com fatores de ordem cognitiva, como: ativação do conhecimento prévio, conhecimento compartilhado e realização de inferências.

Outra riqueza do livro é o seu projeto gráfico, idealizado por Antonio Kehl, ele é ilustrado por uma grande variedade de gêneros textuais que exemplificam as discussões teóricas e mostram as inúmeras possibilidades do professor trabalhar com textos de gêneros variados. Neste aspecto, vale ressaltar o trabalho que as autoras tiveram em selecionar charges e tiras de quadrinhos de personagens conhecidos que, além de informar, divertem, chamando a atenção para a ironia e o humor que caracterizam tais textos e que exigem, para ser percebidos, um leitor experiente que consegue mobilizar as várias habilidades de compreensão descritas na obra, para construir os significados do texto. Na capa do livro está reproduzido um óleo sobre tela de Waldomiro Sant’Anna, Menina Lendo,produzida especialmente para a obra, que, pela beleza e colorido, chama a atenção para a riqueza da discussão que o leitor vai encontrar na leitura e compreensão dos sentidos do texto propostos pelas autoras.

 

 

KOCH, Ingedore V. & ELIAS, Vanda Maria. Ler e Compreender - os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006. 216 p.