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Relato de Pesquisa


Percepções sobre a Leitura na Escola

 

Fonte: Leitura Crítica - Coord. Ezequiel T da Silva

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Este cenário foi construído a partir de um questionário fechado, respondido via Internet por 131 pessoas. O período de realização foi de 1° de março a 10 de novembro de 2011. Cabe sempre sublinhar que se trata de um "cenário" contendo sub-temas dentro dele e devendo merecer o crivo de pesquisas com controles mais rigorosos por parte dos interessados. Os gráficos são apresentados para serem lidos em primeiro lugar; depois, segue-se uma discussão com conclusões gerais a respeito de algumas descobertas aqui reveladas.

DISCUSSÃO

Preponderam, nesta investigação, pessoas da Região Sudeste (SP, MG, RJ e ES) trabalhando fundamentalmente nos níveis fundamental e superior. É bastante provável que a distribuição desigual por regiões e por níveis digam respeito à possibilidade de acesso à Internet (mais difícil aos profissionais da Região Norte) e ao manejo das operações necessárias para responder a um questionário on line; pode revelar ainda desconhecimento do Portal Leitura Crítica no âmbito dos estados brasileiros.

Os impedimentos para a desenvoltura da leitura pelos estudantes, conforme a percepção dos respondentes, se centram na falta de preparo anterior, falta de repertório cultural e preguiça. Esta tendência parece mostra que os estudantes são percebidos como seres frágeis em termos da chamada "prontidão" para ler e aprender. Por outro lado, lembrando que o repertório cultural também é constituído e organizado ao longo das séries escolares, o gráfico para mostrar problemas no próprio ensino e no currículo, que não preparam a estrutura cognitiva dos alunos para as séries seguintes. A questão da chamada "preguiça para ler" mereceria uma discussão à parte na medida em que se tornou um chavão afirmar que os estudantes não apresentam a devida disposição ou atitude adequada quando têm de interagir com os textos propostos pelos seus professores. Note-se que a afirmação "Não lê porque não tem tempo" não é corroborada neste estudo - outros impedimentos são priorizados pelos respondentes, sendo que a variável tempo aparece em último lugar (3,8%, 5 respostas).

Uma hipótese mais negativa a respeito da qualidade do ambiente para leitura poderia ser descartada, de acordo com os resultados desta investigação. Ainda que a maioria (56%) tivesse afirmado uma pobreza do ambiente de leitura, quase a metade da população (43%) afirmou que o ambiente de sua escola é rico. Esta constatação pode indicar uma preocupação maior das autoridades e/ou professores em relação a materiais e outros recursos para as práticas de leitura. E essa mudança é sem dúvida alentadora, considerando-se que por muito houveram muitas reclamações voltadas à falta de infra-estrutura para leitura no contexto das escolas brasileiras.

A dosagem de leitura silenciosa pareceu adequada, ocupando até 20% do tempo de um curso. Cabe notar que 14% dos respondentes não utilizam leitura silenciosa ao longo dos seus cursos - esse percentual é preocupantes, considerando a importância e preponderância desse tipo de leitura nos tempos atuais. Os textos mais intensamente utilizados são os xerografados e os contidos nos livros didáticos, secundados por textos da Internet, mimeografados ou copiados da lousa. Essa tendência de maior uso de textos xerografados corrobora uma descoberta anterior do Leitura Crítica, que apontava para o maior uso desses textos na própria trajetória de formação dos professores.

A sedução por outras mídias parece ser o maior impedimento que reduz o sucesso em leitura pelos estudantes. Some-se a essa sedução a correria e a pressa que indicam a velocidade da vida contemporânea. A família, enquanto promotora de cultura, não ajuda muito, pois que 20% do universo desta pesquisa apontam para cultura familiar pobre, não instigadora de leituras.

CONCLUSÕES GERAIS & QUESTIONAMENTOS

Certamente que os dados sistematizados nesta investigação permitem uma série de diferentes conjecturas e elucubrações. Isto porque a realidade brasileira da leitura escolarizada é complexa, variando sobremaneira de região para região. Mesmo assim, convém fazer alguns destaques de modo a orientar outras pesquisas - mais bem calibradas e rigorosas - sobre essa realidade:

1. A desigualdade de respostas entre as regiões brasileiras põe em destaque o próprio acesso à Internet e o manejo da informática pelos professores - tudo leva a crer que, exceto os Estados do Sudeste e Sul, a Internet ainda é um instrumento de baixo uso no magistério. Eis uma questão a ser mais bem investigada, principalmente quando são relembrados todos os discursos relacionados à promoção dos professores e à melhoria da qualidade da educação. Questão complementar: Por que os níveis infantil e médio tiveram pouca participação nesta pesquisa?

2. A desorganização curricular parece ter sido uma barreira muito grande para a evolução em leitura por parte dos estudantes. De fato, quando os respondentes ressaltam a falta de preparo anterior, falta de repertório cultural, etc., eles estão claramente indicando que o conhecimento adquirido de série para série, de nível para nível, deixa a desejar, o que pode explicar, por exemplo, os baixo resultados obtidos com os testes de desempenho, aplicados pelo Governo, nas séries terminais. Daí a necessidade de se definir objetivos claros para a leitura na escola, prevendo-se uma continuidade "sadia" ao longo da trajetória escolar dos estudantes.

3. O xerox parece ainda reinar absoluto nas salas de aula. Esta problemática já foi devidamente denunciada neste portal, cabendo lembrar o carater fragmentário das leitura, a ausência de autoria na maioria dos casos e a esquiva aos livros e às bibliotecas. Fica distante também uma possibilidade de ensino que tenha como base a busca de informações para a realização de pesquisas pelos estudantes.

4. Os veículos de comunicação, ao invés de serem incorporados ao ensino da leitura, são vistos como vilões do processo. De fato, parece que esses veículos não precisam ser lidos... dessa maneira, se apresentam como objetos de sedução que levam ao distanciamento dos textos mais intensamente usados pelos professores ao longo das suas aulas. Eis uma tendência a ser imediatamente revista e, se possível, corrigida, pois os meios de comunicação devem ser colocar integradamente a favor da promoção da leitura e não ao contrário.

Relato elaborado em novembro de 2011
Pesquisa 003 - LEITURA CRÍTICA