|

|
Ao
longo dos anos de exercício do magistério, venho ouvindo chavões e máximas
que penetram o processo educacional que se impregna dessas sandices e as
perpetuam. Ando meio cansada deles, principalmente daquele que se refere
ao (desenvolver o) gosto pela leitura.
Como ocorre isso? Não ocorre. Ninguém ensina ninguém a gostar de algo ou
de alguém. Não posso, por exemplo, ensinar minha amiga solteira a gostar
de um homem maravilhoso que conheço, ou se apaixonar por ele. Sou eu quem
o acha galante e gentil cavalheiro, talhado para fazer par com ela. Que
técnica poderia eu usar para que ela se interessasse por ele? Nenhuma.
Isso não existe. No caso das paixões e dos amores, você troca olhares com
uma pessoa e algo ocorre; é o famoso bateu, é o chan, que ninguém entende
ou segura. Daí para frente, é só alegria, conquista fácil, se o chan bateu
também tiver batido no parceiro.
Minhas netas nunca gostaram dos verdinhos, as decantadas verduras tão
necessárias à alimentação de todos para garantir boa saúde; gostar delas é
problemas para as crianças, aliás, para alguns adultos, também, crianças
que já foram e delas bem se recordam.
Verdade nua e crua é que elas, as verduras, as tais verdinhas, são
horríveis mesmo, não têm gosto algum, de nada. Se quisermos que elas
tenham sabor, temos de adicionar sal, tempero, azeite, ou molhos,
alcaparras, mostarda e, aí, sim, desfrutamos delas, achando que seu sabor
é bom, quando esse gosto é proveniente não delas, mas indubitavelmente,
dos temperos que a elas adicionamos.
Em função da boa saúde, e para atender às demandas dos ditos populares e
dos nutricionistas de plantão, dizemos às crianças que as verduras são
gostosas. É isso mesmo, a gente mente para as crianças na tentativa de
enganá-las. Ledo engano, o desgosto se reflete em seus rostos, quando elas
comem os tais verdinhos que, desacompanhados, não fedem, nem cheiram; são
insípidos. E, embora eu admita sempre que elas sejam essenciais à saúde,
sou frontalmente contra as mentiras, principalmente as desnecessárias,
quando se trata de como lidar com crianças ou adolescentes em seu processo
de formação física, moral e psicológica. E, considero mentira
desnecessária, tanto dizer às crianças que verduras são gostosas, quanto
dizer a quem não gosta de ler, que ler é bom.
Verduras são “gostosas” para quem já se acostumou a comê-las – sim,
comê-las é questão de hábito, não de gosto –, sem discutir seu sabor e
porque já entende o importante papel que elas desempenham como elementos
fundamentais do processo de crescimento físico e mental dos indivíduos e
no da manutenção da saúde.
Não discutirei as múltiplas facetas e utilidades dos vegetais em sua
contribuição para uma alimentação completa e saudável, pois, muitos
profissionais da área de nutrição já o fizeram. Comer verduras, hoje, é
consenso, em termos de necessidade. No passado, as crianças não discutiam,
comiam o que os pais mandavam e estes ignoravam a importância de se comer
tais clorofilados, mas colocavam na mesa as folhinhas colhidas das suas
hortas. Questão de desconhecimento científico, de hábito, e de economia.
Por isso, acho estranho, quando leio textos de teóricos do ensino de
línguas dizerem que vão sugerir atividades cujo objetivo é desenvolver nos
alunos o gosto pela leitura de textos escritos; fico surpresa, pois do
mesmo modo como não podemos fazer alguém gostar de alguém, ou de
verdinhas, não podemos fazer alguém gostar de fazer qualquer coisa, muito
menos de ler textos escritos.
A questão é de dupla ordem. Primeiramente, só se pode desenvolver algo que
já existe; é questão de semântica e lógica. Não posso desenvolver aquilo
que não existe. Se o aluno não gosta de ler, como vamos desenvolver essa
falta de gosto, esse gosto que não existe? Eu teria de esperar que ele
nascesse de novo já com tal gosto. Em segundo lugar, mentiras têm pernas
curtas – os que não gostam de ler, e eles existem, logo descobrem a fraude
– e esta leva ao descrédito de quem a apregoa. Daí o risco que os
profissionais do ensino das línguas correm ao repetirem afirmativas desse
tipo.
Dizer, então, a um aluno que não gosta de ler textos escritos que vai
desenvolver seu gosto pela leitura é mentira de discurso semântico e
deslavado achincalhe à lógica filosófica, já que, como afirmei, não se
desenvolvem entidades, coisas, objetos inexistentes. Se o aluno tem o
gosto pela leitura, posso ajudá-lo a desenvolvê-lo, aprimorar sua
capacidade interpretativa, até a chegar ao ponto de ele se tornar um
viciado em leitura. Sonhar não é proibido! Porém, se o aluno não tem o
gosto, tenho um problema que precisa de solução.
Como, por um lado, creio serem essas mentiras uma das causas de os alunos
não acreditarem no ensino do português, que já anda enfrentando problemas
sérios para ensinar leitura e escrita, já que o ensino depende do ler e do
escrever bem, por outro, sabemos que muito já se discutiu sobre essas
questões; acho é hora de enfocar as soluções.
Tanto para a verdura quanto para a leitura a solução é a mesma, única e
simples: a verdade pura. Digam às crianças que verdura é horrível e nada
tem de gostoso, mas que é remédio e, por isso, elas têm de comê-la, que
não podem, a exemplo dos remédios, escolherem tomar ou não; elas têm de
tomar. Com a verdura ocorre o mesmo: é preciso comer o remédio. Verdura é
remédio contra as doenças.
Quanto à leitura de textos, digam o mesmo: se você acha que ler é ruim (e
o é para alguns, assim como é puro encantamento para outros), pode
continuar a achar. Digam aos alunos que vocês respeitam seu desgosto pela
leitura, mas que precisam ler de qualquer modo, não por gosto ou vontade,
mas por necessidade: leitura é remédio contra a ignorância; é medicamento
tal qual a verdura. Leitura é antídoto contra o veneno da alienação, da
opressão, da inculcação de valores escusos, contra o escamoteamento da
verdade social e política. Ler institui um estado do saber tão legítimo
que, depois de apropriado, ninguém pode tomar ou deletar.
É preciso que os professores aceitem os alunos que não gostam de ler. Eles
não têm culpa de não gostarem de ler. Posso garantir isso, porque eu mesma
odeio ler, mas leio e muito, todos os dias, por necessidade de estudo, boa
saúde mental e sobrevivência no mundo global. Ninguém, mas ninguém mesmo,
nem as mais sofisticadas técnicas utilizadas para desenvolver meu gosto
pela leitura nesse mundo de Deus, fizeram-me gostar de ler. No entanto,
alguém num passado bem distante, sabiamente, me aceitou como eu era: pária
por não gosta de ler textos escritos, já que avaliava minhas outras
leituras, as amenas como a de mundo e a das imagens que não costumam
causar problemas. Esse alguém me ensinou, não a gostar de ler – tarefa
inviável -, mas a formar o hábito de leitura, como remédio contra a
ignorância e a maldade do mundo.
É isso mesmo, verdura e leitura (... e elas até rimam!) são remédios, uma
contra doenças e a outra contra a ignorância, reitero, que têm de ser
aplicados em doses homeopáticas, contínuas e progressivas; às vezes, elas
precisam ser empurradas goela abaixo com sabedoria e, se vomitadas, devem
ser tomadas de novo. Verdura e leitura exigem formação de hábitos, ou
seja, que a gente se habitue a usá-las. Agradeço à mestra que me fez
entender isso; acho que ela nunca se deu conta disso.
|
Helena Maria Gramiscelli Magalhães - Professora aposentada da
Faculdade de Educação da UFMG, onde lecionou as disciplinas Prática
de Ensino de Português e de Línguas Estrangeiras, Didática de
Licenciatura e Fundamentos do Ensino de Língua Materna. Leciona no
PREPES, pós-graduação da PUC- Minas, nos cursos de inglês e
português, as disciplinas Análise do Discurso IV (O discurso do
Humor) e Semântica II (O Discurso do Humor Negro Brasileiro), e
Semantics and Translation, Morphosyntax e Metodologia da Pesquisa
Científica III (Produção de Monografias). |
|