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"Talvez nenhum lugar em qualquer comunidade seja tão amplamente
democrático como a biblioteca pública. A única exigência para entrar é o
interesse!" - Lady Bird Johnson
Por
várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que
uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar,
necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede
articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos
bibliotecários.
Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque
os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as
necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da
organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas
comunidades existentes nas regiões brasileiras.
As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro,
publicadas com o nome "Retratos da Leitura" (ver
http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48 ), mostram
que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse
percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que
existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à
cultura escrita.
Inexistentes ou anacrônicas
Tais "retratos", em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se
refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou
ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a
funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de
ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe
profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das
autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando
que as comunidades "se virem" no que se refere aos suportes profissionais
que facilitem a convivência com livros e outros veículos da escrita.
Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para
perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca
comunitária. Contou-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham
"catado" livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de
catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam
expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas,
quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as
bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida
importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.
Essa experiência com a "biblioteca catada" não é muito diferente de outras
que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca,
peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc.,
enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o
problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e
crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do
borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira
reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo
que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na
real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em
biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos
incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade
pelas esferas governamentais.
"Melhor isto do que nada", dirão as más línguas. E talvez a minha própria
língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos
processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode
levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades.
Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O
queijo e os vermes - o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido,
de
Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento
do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos
suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a
sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de
interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª
idade,etc.) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados
para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa
ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de
maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área
de biblioteconomia.
Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças
para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em
diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as
comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito
fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do
bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista,
catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos
castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua "dispensa" no
momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.
A briga de Darcy Ribeiro
Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro,
trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a
classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a
contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal
estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de
muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse
estereótipo está servindo realmente... No meu ponto de vista, ele também
serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em
relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias
neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um
jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!
Para não colocar o bibliotecário como "vítima" de uma história meio ao
contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro
dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por
diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações,
são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e
práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou
empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são
refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o
círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as
escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o
período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de
profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às
carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma
comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para "tomar conta da
biblioteca".
Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um
amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental.
Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de
mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que
era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele
instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e
alunos tinham muito interesse nos meus escritos.
Um navio à deriva
Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação
à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior
poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão
jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um
episódio desta comédia tragicômica chamada "biblioteca brasileira". Sei,
também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade
de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de
volta.
Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das
bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico
Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, "haja
paciência" para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo.
Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente
nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar
se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os
dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo
brasileiro.
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